Eduardo Nascimento – Poesia

LIVRO DE POEMAS OU TALVEZ SIM…

“O esquecimento só é possível,

depois da memória ter cumprido a sua tarefa”

Poesia?

(Ou como tentar explicar o inexplicável…)

As letras estão lá, tímidas, escondidas, a um canto, formadas no tempo, para exemplificar sons, para expressar um olhar, um tato, uma intenção, uma organização interna dos sentidos, uma forma de tornar real, a volumetria sôfrega do interior.

As letras estão lá, visualizadas pelo descobridor, numa timidez aparente, como uma lava de vulcão aparentemente adormecido e sonhando com a proximidade do céu, com a vegetação exterior serena, beijada pelo sol, pela lua, pelo vento, despenteando plantas e animais.

As letras estão lá, no interior dos espíritos sonhadores.

Depois, assomem lentamente. Vêm lentamente ao de cima, fazendo efeitos estranhos, na cabeça e no coração, de alguém que se quer manifestar, para acordar a palavra significante de atenção, á união do grande voo textual.

Depois, vem o espanto, no juntar uma a outra e outra palavra, formando uma abertura por onde lava liberta, vai fluindo na direção do verso, da prosa, da história, da mensagem, do encantamento da ideia ao oceano infinito do verbo, toque mágico da unidade da virtude exaltada do húmus que as raízes tocam. Despejo universal ocupando tudo, no entretimento do som bailarino, na babel gravando os passos do ser, dos Seres comunicando, comunicando mesmo em silêncio da letra perdida.

E por aí, a palavra iniciada penetra na formação, na criação, na exaltação, no vislumbre, na essência da Poesia. O verbo realizado, oriundo da timidez do poeta, do despertar dos mágicos, ligados ao cosmos, poder da grande energia vivenciando a flor perdida no esquecimento solitária da cidade, enriquecendo em alteração constante, rodopio em cada átomo quebrado, para a luz no calor dos afetos.

Depois vem a fusão das letras inundando, penetrando, saindo, surgindo, rompendo, perpetuando a mensagem, o sonho desperto, a vida, depois de edificada a Palavra. Depois da repetição irrepetível, da conjugação das esferas. No ir e vir eterno, retorno dos diamantes brilhando na correspondência das sementes, na ilusão do pó. No descarrego uterino da reprodução. Na libertação absoluta da evolução.

Som mudo de uma outra dimensão arrastando a matéria para a desordem controlada de uma outra dimensão descoberta pelas asas das borboletas.

E que avancem as roldanas do tempo desequilibrado. E que as portas fiquem semiabertas. E o ar se expanda na palavra. E o que era invisível, a poesia descubra no intervalo da pele, a textura do som, no refúgio da gruta abandonada, quando timidamente se procurava o rumo certo para o Poeta surgir por ter tocado, ao de leve na membrana que separa o outro lado.

Eis como a palavra vem sarar a ausência.

Com a sabedoria da água tombando, em cada grão de areia que o poeta contou…

en

31.7.13

E assim se desfez
o enlevo no
Teu olhar
límpido de
Desfazer paisagens,
Em monóculo que penetra
No interior,
livre

E assim a terra
Acolhe a semente
da tua renovação

Hoje vai tombar Julho aos pés da Agosto das cigarras,
De asas salientes
À sombra dos pinheiros mansos
Das ilhas

De asas refrescando
Os camaleões
Com línguas e olhos
De longo alcance

Perante o teu olhar até ao céu, em inscrição
De coração adiado de porcelana …