Eduardo Nascimento – O Pirilampo, o Cavalo e a Estrela

O PIRILAMPO, O CAVALO E  A ESTRELA

Ilustrações

José Ruy

Era uma vez um cavalo negro, negro como uma noite de lua nova, onde só as estrelas existem, salpicando de luz a terra e, de nariz espetado para o ar ficamos, horas e horas, procurando o infinito, para lá do sonho e imaginação.

Estas pequenas luzes reflectiam-se sobre o dorso deste cavalo, livre como o vento, cavalgando montanhas e vales.

Um dia, ao passar pelo vale dos pirilampos, parou maravilhado com um espectáculo destes animaizinhos, dançando e voltejando, como pequenas varinhas mágicas irrequietas, ao som do abano das árvores, próximas das dunas e de outros animais contemplativos, escondidos entre as ramagens.

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Com muito cuidado, o cavalo aproximou-se de mansinho, ainda com o  reflexo das estrelas na  crina e na sua longa cauda, reparando que no espaço daquela dança “pirilambolesca”, havia  um poço, onde habitava uma cobra com pintinhas amarelas. Sobre o muro estava um pirilampo, com uma luzinha estranha de uma tonalidade azulada, piscando  numa intensidade diferente do resto do grande grupo tremeluzente, voando em compasso sobre tudo o que era escuridão.

Chegando-se mais perto, perguntou o nosso lindo alazão negro, num relincho calmo:

  • Desculpe o incómodo, ó senhor Pisca-Pisca, mas a quem é que está  para aí a dar sinais, de uma maneira tão diferente, em conversa com essa sua amiga amarela, enroscadinha nas pedras do poço e apontado para o alto?
  • Afinal o  que é que se passa? Está com medo que lhe caia alguma coisa em cima ?
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O pirilampo, depois de tanta pergunta, levantou um dos olhos para o cavalo e, numa voz trémula, tentou explicar, mas em vão. Cada vez que começava, saia-lhe uma faísca avermelhada e apontando a sua pequena lanterna em direcção ao céu, tremelicava uma luz azul intensa com uma lágrima triste de paixão.

A dona cobra das pintinhas amarelas, notando esta interferência, desenroscou-se do seu poiso e aproximando-se do cavalo intrigado, de  orelhas em pé, numa voz muito sibilante, como só estes animais rastejantes têm, contou-lhe da melhor maneira possível, o problema do nosso pirilampo triste:

 – Sabe, senhor cavalo, este meu amigo reparou, desde há vários dias, quando estava deitado, de papo pirilampo para o ar, e a lua, volta na volta deixa a terra, para ir dar o seu passeio à volta do sol, ficando antes de partir, como um fiozinho  prateado, perto de uma estrela especial de grande intensidade luminosa.

Assim que as duas começam na conversa, se calhar a combinarem o tal passeio, este fica ali, sobre o meu poço-casa a contemplar aquela estrela, linda e perfumada, como ele diz, dando ais de suspiro, enviando-lhe mensagens de luz azulada, faiscando de vez em quando de vermelho, como se fosse um familiar distante, ou alguém que conhece há anos.

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– Logo que o fiozinho de luz desaparece, lá vai a estrela com ela, e  lá vem mais uma chuva de faíscas vermelhas.

 O que  havemos de fazer, para aliviar esta tristeza de pirilampo?

 O cavalo, ao ouvir esta história, entendeu logo, que o nosso infeliz pirilampo, estava apaixonado pela estrela, amor secreto de longa distância, como se uma necessidade de trocar conversas de luzes, entre o céu e a terra, o impelisse para cima em grande contemplação.

Uma noite, estava a lua observando a terra com o seu telescópio lunar, reparou numa estranha luminosidade, sobressaindo entre as danças daquele vale repleto de movimento e alegria. Uma luz diferente, como a apontar na sua direcção.

Como era muito amiga desta estrela, companheira de milhões de anos e milhares de conversas sobre astros, planetas, outras luas, sóis, cometas e estrelas cadentes, não falando dos outros seres que não podem revelar por segredo, virou-se para ela, partilhando logo esta estranha observação longínqua:

– Cara amiga, já reparou naquela luzinha, ora azul ora vermelha, vinda de um bichinho sempre a apontar para aqui? Nunca vi nada assim. Ora espreite aqui,  no meu instrumento especial de longo alcance, para observar terráqueos. Só lhe falta o amarelo para ser igualzinho a um arco-íris.

A amiga da lua olhou curiosa e, como era um bocadinho míope, não tinha notado naquele ser lindíssimo, sentindo subitamente um bate de coração repentino de estrela e, num suspiro de “estrela a ver estrelas”, ficou tão brilhante que até alguns cometas pararam, pensando se esta não lhes tinham tirado algum bocado das caudas luminosas.               

– Mas, mas, é lindo, lindo. E que azul e que vermelho. Estarei a sonhar? Tenho de falar com ele para lhe contar histórias que só nós sabemos e passear com ele em noites que estás cheia e iluminas tudo e até as fadas têm de usar óculos escuros para ver a estradas da via láctea – disse esta, eufórica, com a lua a olhá-la de lado, desconfiada.

E  assim ficaram pensando e pensando, durante várias voltas estelares, qual a melhor maneira de comunicar com ele, reparando que junto do poço outros dois seres se destacavam, pelo reflexo de pintinhas amarelas no pelo luzidio do cavalo, abanando a cabeça para baixo e para cima.

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Na Terra, o pirilampo, o cavalo e a cobra das pintinhas amarelas já então amigos, depois de muita conversa e confissões, olhando ao mesmo tempo para a direcção que já sabemos, sentiram-se subitamente observados pelo telescópio da lua e, de boca aberta, viram um raio de luz  aproximar-se, projectado sobre o cavalo negro, com uma mensagem logo entendida pelos três:

 “Vamos enviar-te o poder de voar até ao infinito, ó alazão dos quatro cantos da terra. Terás asas para o fazer. Traz esse ser piscando luz azul e vermelha, para sabermos mais sobre os seus segredos dessa intensidade diferente. Se quiserem, tragam também esse ser de pintinhas amarelas. Ele pode enroscar-se aqui em asteróides nossos amigos. Esperamos por vocês. Mas despachem-se que o meu fiozinho de lua está a acabar”

O nosso pirilampo, nem queria acreditar. O seu sonho estava a tornar-se real. Poder tocar na sua estrela, paixão de muitos suspiros e noites de escuridão que só a pintinhas amarela o suportava, finalmente podia ser realidade.

Ao saber desta maravilhosa notícia, deu-lhe para voar em ziguezague, à velocidade da luz , obrigando os seus amigos luzidios a pararem estarrecidos com tanta volta e tanto ziguezaguear enlouquecido, interrogando-se sobre aquele súbito ímpeto de alegria e agitação.

Nessa noite e no dia seguinte, até ser noite outra vez, ninguém conseguiu “pregar olho”. O cavalo pensava, como seria  ter asas. A pintinhas, o que seria um asteróide. O nosso pirilampo apaixonado, como seria a sua amada estrela, pertinho, pertinho.

E com tantos “ais e mais ais”, tantas interrogações, lá se foi passando o tempo e aguentado a impaciência. No dia seguinte, quando o sol, que já sabia da história, se ia despedindo lentamente no horizonte, num bocejo de bola de fogo,  necessitando de um bom descanso, depois de um dia longo a enviar calor e luz para este planeta azul visto de cima, os nossos amigos, de “trouxas aviadas” de véspera, juntaram-se perto do poço, esperando a mensagem vinda de longe.

E não esperaram muito tempo…

Logo que o fiozinho de lua e a estrela, nervosamente apaixonada apareceram, uniram num esforço mágico, um raio poderoso de asas livres enviado à Terra transformando  o cavalo num alado capaz de sobrevoar infinitos, lembrando-lhe dos sonhos que tinha, quando dormia no alto das montanhas.

O pirilampo e a pintinhas subiram para dorso do cavalo agarrados às suas asas e à longa crina e, impacientes de excitação, levantaram voo, sobrevoando em espiral o vale, subindo, subindo, numa espécie de bailado, num vento suave acariciando, entre sons de alegria, em direcção às duas amigas, esperando ansiosas esse encontro no seu ponto de miragem. Ao chegaram perto das duas anfitriãs, após muitos cumprimentos, vénias, e troca de emoções, resolveram passear um pouco pelo espaço estelar, apresentando-os a outros amigos, espalhados pelo infinito, esquecendo o sol, acordando estremunhado e curioso dos ruídos estranhos daquela noite que para eles era dia.”

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Durante muitos dias, ninguém viu no céu, estas duas personagens, alterando a vida normal daquele vale, sempre habituado ao rodopiar dos pirilampos.

O que se passaria? Interrogaram-se estes colectivamente parando perto do poço, deserto de tristezas.

Depois de uma reunião, “pisca para aqui e pisca para ali”, resolveram nas noites seguintes, investigar com mais atenção, a ausência daquele companheiro pirilampo que passava todo o tempo em cima do poço, com aquela cobra salpicada de amarelo falando, sabe-se lá do quê?

E assim, depois de esperarem várias noites, com o “nariz pirambolesco” espetado para o céu numa muito estrelada, transformaram-se momentaneamente numa espécie de fogo de artifício com profundos e intensos “ais” de suspiro e sons de espanto cósmico, em tons de azul vivo, brilhando intervalado num faiscar avermelhado.

Estavam tocados pelo espaço celestial, deliciados com os “milhões e milhões mais que biliões e triliões”, eles sabiam lá, quantas mais estrelas lindas, maravilhosas, esplendorosas, enfim, mais que amorosas criaturas brilhando, brilhando com todas as cores, ali “à mão de semear”.

Como quem diz, tão perto do coração dos milhões de pirilampos apaixonados.

Entretanto, a lua e os restantes amigos, entregues a grandes pensamentos universais, amizades eternas, combinando passeios futuros, olharam momentaneamente para a Terra pensaram ter começado aí, algum fogo de artificio azul e vermelho.

Ao entenderem o que se passava, viraram-se todos para o nosso alazão alado, cada vez mais salpicado de estrelas:

  • Bem, parece que tens trabalho para uns bons milhões de anos. Não é fácil transportar, tanto pirilampo, para tanta estrela suplicando a tua ajuda desta maneira, de lágrima espetada num dos bicos.

O cavalo, que tinha um coração bom e nobre, concordou com os outros amigos prontificando-se a fazer as viagens, cá lá e lá cá e cá lá, e outra vez lá, até que os céus se enchessem de mais estrelinhas e estrelonas, pontinhos luminosos e constelações diferentes, num aumentar de luz em brincadeiras com os cometas, sempre com medo que algum pirilampo lhes tirasse algum pedaço de cauda.

A nossa amiga Pintinhas Amarelas, aprendeu também a voar facilmente, divertindo-se com os asteróides, meteoritos e outros seres que não podem revelar aos terrestres, por causa do tal segredo, escondido no infinito.

A estrela do fiozinho de luz e o pirilampo pioneiro, passaram a visitar outras Luas, de outras Terras, levando notícias e histórias de outros pirilampos e de outras estrelas.

E neste vai e vem, a nossa Terra, ficou mais perto da lua.

Quando está cheia, para fugir dos seus vizinhos barulhentos, sempre em brincadeira, delicia-se descansando, num abraço enluarado, sobre a espuma dos oceanos e no branco dos glaciares.

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O cavalo continua a andar, para cá e para lá, transportando e aproximando estrelas e pirilampos, suspirantes de paixão, no encontro lá bem no alto, cada vez mais estrelado e cada vez mais bonito.

O sol, no dia seguinte, como ainda conseguiu ouvir aquela história toda, ficou a remoer todo o dia até se ir deitar no fundo do regaço do mar:

– Pirilampos e Estrelas. Seria engraçado se alguma “dragona” com uma chama  ardente, ficasse de cor azul e se apaixonasse por mim. Seria bonito!

Se calhar, até podíamos brincar ao arremesso de bolas de fogo e quem sabe, fazermos corridas com os cometas e as estrelas cadentes.

–  Uma dragona! he! he! – Disse em alto e  bom som solar, olhando para a terra, de soslaio, procurando nos castelos abandonados desde à muito, se calhar, alguma “dragona” esquecida.

E foi dormir, perante o olhar curioso dos quatro amigos, ainda conversando, sobre tudo e sobre nada.

Como bons amigos suspensos no céu…

Eduardo Nascimento