Eduardo Nascimento – O Fole do Meu Avô Jacinto

O FOLE DO MEU AVÔ JACINTO

Ilustrações

Alfredo Martins

“O mal, não é não haver água. O mal, é não haver sede”

Meu tempo de sonho e mudança
Reviver dentro
A seiva do ciclo suspenso
Na hora da simplicidade
Das estevas da serra algarvia
Num tempo curto
De grande beleza e êxtase…

O meu avô Jacinto tocava fole de celeiro em celeiro, em todo o lado do sul da península, onde o chamavam, desde aldeias a povoados, especialmente nos montes e cortes escondidos na serra Algarvia, ao lado do rio Guadiana fluindo, com histórias de Espanha e mouras encantadas rio atravessado de memórias de barragens, Alqueva esquecida, no sentimento da Aldeia da Luz, afundada nas margens da civilização, ao longo das lágrimas perdidas, com símbolos atómicos, eventos do tempo de dar água ao progresso incompleto da alma, em que tudo fica por lavar, dos corpos e dos trapos sobre aqueles seixos de veludo, antigos de saber da passagem dos peixes para algumas desovas. Nesta energia líquida brincavam as lavadeiras secando nas moitas de morangos silvestres, em canção dedicada ao mediterrâneo, que nunca conheceram, quando os seus beijos tocam no infinito salgado de sonhos e contradições.

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O meu avô Jacinto despejava musica nas almas e nos corpos das moçoilas e mancebos dançando e voltejando sobre o desejo, no corridinho malandro, coxa em riste numa velocidade frenética em ilusões de serra algarvia, nas quadras picantes de montanheiros de olho vivo e pé ligeiro.
O meu avô Jacinto, de olho azul profundo, ao passar por ali, de vez em quando, transformava estes lugares, levando notícias de outras paragens e outras danças, num céu aberto, quebrando a monotonia nocturna dos animais, mudos de espanto naquela confusão de corpos bailando, rebolando depois na palha seca, noite diferente de candeia perdida, perto de alfarrobas e de histórias distantes, da raiz das estevas, atentas, nos primeiros cheiros de primavera.

 Eram dias de festa, esquecendo a rudeza do sol sobre rugas de terra gretada amamentando frutos secos, transportados em cânticos de boca seca, do pó dos caminhos tortuosos, quando já não havia água nas enfusas de barro,  para as carroças de mulas famélicas, paciência de bestas resignadas na sorte, mastigando espinhos e cardos, com insultos de arre macho que já é tarde e que o sol se vai tombando.

Vinham de todo o lado, onde a notícia chegava, ao ajuntamento combinado, entre amigos, de bicicleta, burro, a pé ou voando, se fosse possível, pela grande necessidade de distrair sentimento inconsciente.
Procuravam o par na festa, no frenesim nervoso, e talvez, naquela noite, a sorte melhorasse e a mãe da mocinha estivesse ocupada com alguma comadre, em conversa atenta de mexeriquice ou meia mentira sobre outro monte, outra corte, nas “ vergonhêras – parece impossível”, de um outro vizinho ou vizinha que estão nas bocas do mundo por motivos, sabe-se lá, de alguma bruxaria ou mau-olhado a precisar de mezinhas contra as tentações do demónio.

As moçoilas, guardavam entre si, uma sabedoria de malandrice, mais tarde notada, quando as candeias ateavam os celeiros da imaginação e da cabeça, à roda no baile mandado, com estrelas cadentes. Era o princípio do vulcão da serra, nas raízes de um sonho de preenchimento.

No fim, os rapazes regressavam com dúvidas, do encanto do feno e da luz das labaredas, ainda acesas no coração triste da partida com os restos do fole do meu avô Jacinto borbulhando na cabeça e do último beijo tímido, na cara rosada num espanto de tanta lua cheia.

As mães, que só comunicavam pelos cheiros das vibrações dos montes, sem telefones ou outras coisas modernas, inventadas pelos homens das cidades, eram muito mais eficazes porque iam mais fundo aos veios do coração e conhecimento da terra.

O meu avô Jacinto, em compasso de bota, sorria feliz, no seu pequeno palco, dedejando e premindo ferozmente o seu fole levando rodopio, aos corpos livres, teclas a ferver nos dedos, num olhar atento e perdido, para que tudo fosse perfeito, em perfeitos bailares e outras virtudes, de mãos a cima, com o coração perto do cerco maroto, no olhar de soslaio e interessado da vida, que deve ser assim sem maus pensamentos, mas a continuidade para acalmar os desconfiados do amor.

No intervalo, quando havia, o som do fole, era ocupado por uma algaraviada medonha, com risos e confusão, numa linguagem lógica, harmoniosamente minimalista (mistura de conversa Algarvia), alegria para uns e talvez isto melhore para outros, logo que o baile continuasse.

No fim, os sons iam pelas pequenas serras cobertas de lenços sobre a protecção das estrelas no rastejar do corpo de tanta volta ter dado, vitórias e derrotas que o futuro o dirá amanhã, ou foi tudo imaginação de olhares de toques ou de baile.

Eram silêncios de terra vazia a procurar as raízes para que as seivas brotassem e a vida tivesse um sentido.

Todos procuram o aconchego da continuidade, nem que seja para deixar marcas de presença na terra e no seu movimento. Ninguém, nem que seja por segundos, consegue escapar à grande vertigem do cerco rotativo e mágico dos planetas, fluindo para o grande espectáculo dos corpos circulando sobre o amor.

E lá estava outra vez o fole do avô Jacinto, curando as feridas dessa necessidade secreta…

No dia seguinte, quando a necessidade chamava, tudo era normal, no armazenamento da memória, no trabalho das Sesmarias, nas linhas dos comboios, na construção de casa para uns, nos “ amanhamentos” da terra para outros no ir para fora, Lisboa ou estrangeiro.

Outros tentavam a sorte no mar, quando este era generoso e repartia um pedaço de cardume, bivalve, ou polvo de maré baixa.

Iam todos com o peso do fole e das candeias prometidas, naquela dança mais mole de coração, na memória de sentirem, por momentos a sua verdade.

Era o tempo em que os medronheiros se misturavam com o mel e o calor inundava, ainda mais as faces queimadas pelo sol, destes algarvios que comiam o joio na falta do trigo, princípio de guerra, lá longe, crise das securas da terra, em pães que os transformava em crianças rindo e pulando como coisa estranha do demónio.

Ao relevarem estas sensações estranhas aos pastores, pescadores nos seus antepassados, estes, encolhiam os ombros pela insignificância da história.

Eram tão familiares esses estados de espírito.

Quando lhes faltava o tabaco na onça, enrolavam na mortalha uma planta que chamavam losna, crescendo no alto da serra, próximo da semente das estevas, secreta por ter vindo com as marés, quando os oceanos ocupavam tudo até à mais alta montanha.

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A losna, é uma planta oriunda, de África, do fundo dos mares, transportada nas barbatanas dos cavalos marinhos dragões quando a água ocupava as vertentes e a Arca de Noé tinha ainda uns restos para acalmar a profunda solidão dos homens e  animais. Planta forte de grande encanto,, tornada tímida e secreta para os pastores.

Quando as águas desceram, ficaram muitas histórias por contar até aos nossos dias. Ao utilizarem aquela planta, ficava tudo bem, no seu devido lugar, junto às ovelhas e às cabras.

Tudo tinha um rumo certo e a terra girava de uma forma mais perfeita e serena, no alívio dos javalis e raposas, admirados de tanta paz enlouquecida por perto.

Dizem que tem alguma ligação com o joio, na verdade inconsciente de cada um, por causa dos veios do interior da terra que comunicam com as raízes.

Existem plantas que curam ou destroem os homens, na proporção dos seus desejos, ou das suas necessidades. Vêm do fundo dos oceanos e quando descobertas, nas suas características terrestres, vão ajudando ou destruindo no contacto com os corpos vivos, sôfregos de liberdade ou experiência.

Dependem do toque, ou ideia de quem as colhe ou de como as transportam para o interior do físico ou da alma.
A planta solitária, da mais alta montanha, tem o mesmo sentimento de algas marinhas dentro dos corais, na confusão e sobrevivência, entre os peixes que vivem na parte mais funda do oceano.
Prevalece um ligeiro toque de coração, onde o Homem coloca a sua vida ao alcance do tempo de curar feridas.
A saúde do corpo tem mensagens estranhas, dos fluidos das glândulas onde não cabem contornos de um tempo absoluto na descoberta inventada na passividade das rochas do longo deserto do desconhecimento.

As águias de Castro Marim vão sobrevoando, sabiamente num controlo de ventos a favor o que dela resta.
Os pastores sabiam, muito bem o significado daquela notícia do joio. Era uma questão de aproximar uma flor de esteva ao tímpano da serra…

A guerra, lá longe, havia de acabar.

Certo, é que as conchas e os fósseis, encontrados na serra Algarvia, têm resíduos destes cavalos marinhos encantados, ainda desconhecidos do principio dos tempos, quando tudo acordava de um longo sono de espera, para que a terra ficasse mais calma, depois das águas irem inundar outros planetas perdidos nos pecados.

Não deve haver muita diferença entre o mar e serra, pastores ou pescadores.

O fole do meu avô Jacinto, lá quereria dizer alguma coisa naquele rodopio de linguagem no seu sopro sonoro na paisagem nocturna.

O sítio continua lá, impávido e sereno, mesmo ocupado de vez em quando por outros corpos de animais e de outras pessoas, aí passando e bailando como se tudo estivesse na mesma com algumas alterações exteriores.

Era o tempo do voo das cegonhas indo e vindo, numa azáfama de ninhos, na reserva de Castro Marim, planando de vez em quando para matar saudades daquele encontro do rio com o mar.

As cegonhas, quando partem, fazem um bailado de pares, nos píncaros do céu, planam durante horas, experimentando as correntes de ar. Não querem ir, pelo apego à reserva ou às andorinhas do mar. Então, ficam muito tempo, por ali, valsando em espiral, falando, com os deuses das tempestades, interrogando-os do porquê, desta constante alteração de estações, obrigados a ir para longe e outras temperaturas, quando ali têm climas e amizades amenas. Os deuses respondem soprando num som protector, de ter que ser, por questões energéticas de equilíbrio, se encontra sempre algo de melhor, na partida e na chegada e que haverá sempre um bom regresso no contacto com o Mediterrâneo.

Agora que estão, são arquitectos felizes, a contar as peripécias do ir e vir das viagens do outro lado do mundo.

Castro Marim, tem uma missão ingrata de ser o anfitrião do rio com o mar, do doce com o salgado, de Espanha com Portugal, do ir e do vir, numa reserva secreta para os viajantes de todo o mundo que não querem ser incomodados. Encontro a dois, com África tão perto da Europa e do silêncio das dunas, afastadas pelas placas interiores deste planeta aparentemente dividido por fora. Na sua fortaleza virada para o exterior estão fronteiras onde o tempo guarda as marcas mágicas das aves que todos os anos vêm nidificar com a saudade de uma renovação segura.

Ficam as conversas gravadas nas margens do Guadiana, só entendidas por alguns golfinhos sem medo das história dos corsários indo, de vez em quando, rio acima, comunicando com os sinos das capelas das aldeias dos dois países e recebendo  notícias do norte.

Quando repousava o fole, o meu avô Jacinto, sentava-se sob a velha alfarrobeira, secular de milhões de rotação de sóis e de adormecimentos profundos, fazendo cestos de cana e capachos de vime, colhido no terreno do Vale Grande, onde a água tem uma presença de cascata interior, visível nos tufos verdes, espetados como espadas à aridez das amendoeiras de Agosto, implacável de calor e camaleões do Norte de África.

A avó Mariana levava-lhe o jantar, quando o sol estava a pique, a sombra do corpo quase desaparecia de vista, e as cigarras, fazendo um barulho ensurdecedor, como se tivessem bocas nas asas, em árvores com folhas de sombra, olhavam de soslaio a azáfama das formigas, desconhecendo a parábola contada pelos homens que não entendem a necessidade da quebra de monotonia numa estação mais calorenta, sem pensar no futuro.

 Haviam formigas tristes, impedidas de parar para ouvir uma só asa ou observação do capacho…

Os meus avós tinham, por vezes, a companhia do Joaquim das Sortes, vizinho do outro monte subindo a serra, com peixe quase fresco na canastra, coberta com folhas de figueira e algum tempo, vindo do mar, lá ao longe onde os barcos descansavam, para trocar com algum pedaço de gaspacho, carapaus alimados, papas de milho, ou rancho, feito na velha panela negra de três pés (a trempa) com que calmamente acarinhava aquela mistura, num sabor calmo de lenha de azinho.

O Joaquim era bruto da solidão, sozinho de analfabeto, sem família que tivesse paciência para o seu cheiro de montanha sem água, sábio inconsciente na procura, falando com os animais perdidos sem significado para continuar por ali, com a canastra às costas, a pé, à torreira do sol, apedrejando a sua condição quase humana e parando junto a outros seres que lhe dessem alguma atenção no estômago num gesto mais que desprezo ou “mangação”. Mesmo sem família ia ao mar três vezes por semana e quando acalmava a fome falava de coisas sábias que aprendia no pó dos carreiros e na paragem para acalmar a sede.

O meu avô pegava na navalha, comprada em Espanha, partia um pedaço de pão, amassado pela avó Mariana, cortando, entre dedos um pequeno naco de presunto salgado na arca. Olhava para este amigo de infância e apetecia-lhe tocar uma moda do seu fole para o despertar de tanta falta de espanto pela vida.

O pão da avó Mariana tinha tudo completo. Desde o trigo, que os animais pisavam na eira, em grandes voltas, sem eira nem beira, cereal descendo da palha para alimentar os corpos e as almas, ao transporte de burro até a moagem em Vila Nova de Cacela, viagem de duas horas, calmamente, no início do nascente, quando as sacas sobre as cangalhas do burro e o som das ferraduras faziam um barulho seco de impressionar as corujas em vias de dormir.

Quando vinha a farinha, cantarolava, debruçada sobre o alguidar de barro, as rezas de amassar o pão, misturando o fermento com que a verdade é aumentada, num diálogo de relação com o forno esperando, num calor bom, envolvendo a humidade do trigo numa magia e cheiro na mensagem do sol. Antes, fazia o sinal da cruz espetando o dedo sobre a massa, naquelas esculturas redondas para que quem comesse aquele pão, estivesse abençoado pela sorte, aconchegado no corpo e protegido no espírito, sem as bruxas a incomodar.

E era num diálogo de serra e mar que os três se juntavam à volta das últimas novidades, vindas ainda frescas da maresia de Cacela Velha, um dos últimos redutos finais da Ria Formosa onde antigamente, se observavam os corsários nos ataques às aldeias de pescadores, serenos de ria e mar na espera de um bom amanhecer nas redes e outras generosidade de mar.

Depois do jantar e de olhar um pouco para dentro, era o amanhar da terra seca, com alguma rega, o balde a mergulhar no poço, o dar água ao burro, o apanhar das amêndoas, para que o sol, com o seu calor as despisse de mansinho sobre as casas, o milho escasso deitado na pequena eira, o olhar para o céu e para o mar ao longe, consulta de tempo e esperança conforme a cor da linha do horizonte.

Ao fundo, na encosta do Vale Pequeno, existia um pedaço de vinha que todos os anos bons ofertavam, aos amantes dos sonhos, entre uns duzentos a trezentos litros, dum néctar divino esplendoroso, convidando ao grande encontro com verdades quase absolutas, em noites de altos voos de sabedoria, onde o céu de lua nova, multiplicava estrelas na alma, na coragem e na continuidade da vida.

E o tempo parava na noite longa da imaginação.

Numa nessas noites o meu Avô Jacinto chamou-me mais perto e revelou-me a história do início daquela vinha generosa de espantar filósofos.

Houve, naquele Vale, um encontro casual de namorados, profundamente apaixonados em silêncio, descansando os olhos no mar ao longe, comunicando de relance, numa observação tímida de lágrimas internas, projectadas  para a terra onde  o sol os abraçava, comovido.

Tinham feito um pacto de terra e mar…´

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Nessa inclinação especial de Vale mágico, um pequeno raio fecundou, com ajuda da terra e orvalho da Primavera, uma estaca de vime celestial esquecida por um vagabundo, Monge eremita que ali ia contemplar, todos os anos,  o  pôr de sol de Abril da Corte António Martins, quando tinha saudades do  sol  do  Oriente.

 As conversas do futuro eram as tais inclinações para o passado. A procura entre o amor e a sabedoria dos silenciosos solitários.

O ir dormir do sol é o mesmo, todos os anos, na Corte, a magia tem a mesma história. O mundo ainda gira da mesma maneira, no sonho dele e das suas personagens de luz intensa e variada.

Nesse beijo de astro rei sobre as uvas, numa inclinação diferente, havia uma mensagem sentida de união quase perfeita com o sonho e a imaginação. Aquelas posições de sol que vêm de um longo encontram com as estrelas da última noite.

Neste alongar das asas, vinham também, memórias de grainhas ácidas, da razão de Lisboa e de outros mundos, na distância do tempo e espaço que esqueciam quem por ali andava a labutar ressequido de promessas e sonhos de ir e vir, sem fim à vista, na dependência da distância e do Algarve fora da península.

Nestas conversas, coragem momentânea de seres, governando o mundo, num sentimento único de constelações, com a cumplicidade afectuosa, dos anjos de cauda luminosa que nos observavam na distância, deliciados de tanta sensação infantil, igual a Cervantes ou aos loucos do Telhal, seres de alcance especial.

 E a velha alfarrobeira gostava daquelas conversas pela noite dentro.

Quando a tarde caía, os montes transformavam-se em crateras lunares, escuras de contornos suaves, viradas para Espanha, onde os contrabandistas antigamente atravessavam o Guadiana pelos carreiros, só conhecidos pelas raposas e aves de Castro Marim e alguns favores de guardas “compreensivos”.

E assim passavam os dias, entregues ao destino da grande visão de mar ao fundo, Vila Real de Santo António e Ayamonte, com o farol virado de noite para todo o lado, penetrando em casa de cada um, sem pedir autorização, comunicando com os barcos ou outros ataques na memória dos pescadores.

O meu avô Jacinto, homem de visão larga, conhecedor dos cheiros e melodias da serra, da parte humana e do peso do fole da vida, chegava solitário por atalhos, com histórias da terra e do céu.

Um dia contou-me, com voz pausada, num tom sereno de grande revelação, no sítio do ritual onde se matava o suvanito, festa habitual de convívio familiar, em que todos os anos se encontravam, disfarçando o tempo diário de monotonia, uma história de amor, imaginada somente no coração das crianças espantadas, nos velhos melancólicos dos desertos, nos amantes das estrelas luarentas com notícias de outras galáxias.

Existiu em tempos, uma jovem morena que vivia com o seu camelo, branco como a neve, no norte de África de grandes espaços, camelando entre dunas de sonho e oásis de livre escolha, terras de estar bem, mesmo quando os ventos eram mais violentos para alterar os grãos de areia, maleáveis de encanto e volúpia de solidões.

Havia qualquer coisa de triste, no olhar desta jovem que o seu amigo dromedário reparava por vezes quando se aproximavam do mar, mais ao norte, onde a água reflectia uma presença de necessidade de alongamento para lá do Mediterrâneo.

Em verdade, numa pequena ilha do sul da península ibérica, junto à cidade de Faro, no princípio da Ria Formosa, de conchas enormes onde não havia ainda o naufrágio das mãos e a erosão dos turistas, um jovem descansava os olhos, naquelas dunas imaginadas ao sul comunicando com a respiração e um sentimento que lhe chegava sem saber porquê o  prenúncio de uma mensagem ou libertação.

Tinha vindo do norte com os navegadores, fartos do frio e dias pequenos, passear para aí, onde os territórios eram diferentes das outras penínsulas, de sol mais intenso e uma outra magia de luz.

A jovem morena olhava através da água o sonho do norte. O jovem sonhava mais a sul nas dunas imaginadas as calmas elevações de algo onde o corpo descansasse e a fluidez da água tivesse a miragem de um sonho em espiral como os contos do norte da Europa, nas noites longas das lareiras acesas, contadas pelos sábios que percorreram os países dos glaciares eternos iguais às parábolas dos desertos.

Era uma história de amor distante daquela ligação com África, separação única de água absoluta, por causa dos barcos circularem até ao sitio dos Gregos, na inveja dos mercadores onde a sabedoria vinha alterar a estrutura das raízes do pensamento e ligar o coração com a razão.

Circulavam as mercadorias para a evolução e circulava o amor onde as fronteiras não tinham portos certos.

A água fluía nas mesmas margens, umas vezes mais agitada outra mais calma, dependia da disposição dos corsários que conheciam as raízes do conhecimento.

Dependia também, do tipo de mercadorias…

A jovem morena olhava o espaço que podia descansar e viajar, sem estar em movimento, no seu camelo de excepcional de cor branca e camelava, camelava como qualquer amazona, do outro lado do mundo o  fazia, sobre o dorso de cavalos selvagens na extensa pradaria,  perdida de tanta procura achada.

Este camelo mágico excepcional, tinha o condão de viajar no espaço, como um albatroz do outro lado do oceano, no tempo e na imaginação.

Planava durante séculos sobre os continentes do impossível como as pirâmides sobre as areias suportando gerações de planos inconformados pela erosão da memória.

Nesta tristeza acumulada, o camelo observava a jovem, num silêncio sábio de animal do deserto, sabendo do porquê daquele sofrimento e transmitindo-lhe uma mensagem de libertação, foi dando pistas de rota nessa viagem que é vencer a barreira dos afectos. No aconchego habituado da bossa, nasceu a vontade de partida, numa necessidade incompreensível de ir para algo que a esperava do outro lado norte.

Depois de tanta lamentação silenciosa através do suspiro, o camelo lembrou-se do seu poder de viajante aéreo, doado por um mago do deserto personagem das histórias das mil uma noites, no tempo em que as águas ocupam tudo e os animais tinham poderes anfíbios de mar, terra e voos em céus azuis ou tempestades, sem limites de espaço e de tempo.
No regresso ao oásis, concentrou-se na respiração mais algumas palavras e sensações mágicas, levantou voo com a emoção espantada da jovem, sobrevoando em suaves oscilações sobre as águas azuis, secretas de tantos corais escondidos com os seus milhões de habitantes observando a dança dos cardumes.

Num voo rápido e estava perto do jovem debruçado dobre a prata dos peixes sonâmbulos, na ria formosa, onde agora os aviões se levantam, próximo dos pinheiros, mansos de esperarem as partidas e as chegadas.

Como qualquer história, foi inevitável o fluxo e influxo do mar, da terra, do universo, da união e outras coisas de grande espectáculo, das ondas entre o oceano, a ria e a vida. Os dois jovens entrelaçaram-se num longo beijo de uma profundidade de maré-cheia, energia de abraço, numa intensidade de maremoto, força onde só se vivência na prática do amor, do desejo com o seu reconhecimento faz transparecer a rotação dos planetas.

Com tanta energia, projectada em espiral, o pelo branco de algodão do camelo voador, espalhou-se por tudo o que é árvore sôfrega de adornar a paisagem, com algo mais que a secura de entre águas da terra frágil que comunica com as raízes, ideia de princesa que chorava a nostalgia da neve e do outro príncipe encantado pelo outro norte onde a temperatura se multiplica em flocos sempre diferentes como as impressões digitais do nascimento e da individualidade. As árvores estavam lá, como o coração dos amantes, esperando uma ligação de paisagens e costumes de sensações, algo novas com os afectos.

As andorinhas têm essa consciência nas suas viagens e por isso nos contam da dificuldade dos ventos alterarem, muitas vezes, o percurso do homem estar ao contrário dos impulsos das suas virtudes para que tudo esteja estável no seu preciso lugar. As andorinhas lá sabem desse regresso aos ninhos quando são amadas pelo olhar dos homens, na procura sempre renovada de outro ciclo de nascimento.

Esta história, contada pelo meu avô Jacinto, tem uma ponta de verdade, pelo seu conhecimento das amendoeiras, pelo mel envolvido das abelhas que ali iam tocar, entre Fevereiro e Junho, nas flores, esperando os frutos, em intensa harmonia e contraste num bailado sábio de ir e vir para que os hexágonos, quase perfeitos, para preparar os efeitos do verão que se aproximava com o despertar da cigarras. E as colmeias eram universos perfeitos de comunicação e gosto no céu-da-boca, numa serra de melodias, inventadas pelas asas dos insectos sobre as estevas protegidas pelo verniz de tacto difícil para que o belo continue sem a interferência da seca do tempo e da transformação.

O meu avô Jacinto, que vive actualmente em Cacela Velha, no seu olhar de um azul intenso, dizia-me sobre esta história, que tudo é possível na vida, depois daquela néctar divino e de saber que quando se unem os corações com a separação da água, fica tudo com mais intensidade, fica sempre um silêncio bom, a saber a celeiro, a suor do beijo e tudo é possível quando se abrem as comportas do amor.

Num dia de Agosto, os habitantes dos montes, cortes e povoados, vêm do alto da serra com os seus animais, visitar o mar, numa peregrinação, para o tocar e oferecer presentes e comparar, se o sal do rosto é o mesmo do elemento dos peixes. É como sentir o gosto do sol com o perfume de lágrimas salgadas, numa parte húmida onde o passado nunca se esqueceu do tempo do ataque de embarcações que vinham estranhamente agressivas ocupar a costa sem pedir desculpa de chegar. Estas visitas, todos os anos, era uma forma tímida de agradecer ao mar nunca se esquecer dos de lá de cima onde ainda existem as estevas e os sons das marés.

Tudo se repete.
Tudo é diferente.

No coração da serra ocultam, sabiamente a sobrevivência das faces ocultas. São sábios por o não saberem. Têm milhões de deuses, de sonhos breves. Mesmo que o não saibam, não têm culpa dessa consciência de comunicar com as raízes de uma maneira diferente.

O meu avô Jacinto passeava com o seu cajado, num compasso de fim de tarde, sobre o pavimento de tijolo burro, amassado ao sol pelos ancestrais, perto dos poemas de adolescente encantado com os cheiros do ar diferente, casa de chiste e lama a afastar o calor com a cal branca a ignorar os reflexos do sol outros insectos.

O meu avô Jacinto, vive actualmente sobre uma fraga, ouve o som do mar, é feliz com a repetição lamurienta das ostras abrindo e fechando em comunicação com os viveiros das amêijoas. Quando tocava fole toda a noite e chegava a casa com a presença do nascer dum sol igual a um enorme ovo estrelado, pegava num pedaço de pão, que trazia dos celeiros, da melhor padeira local, velha com faces de lua cheia em início de noite e saciava nele, a fome com a cumplicidade dos primeiros sons dos pássaros e inveja das corujas e do farol que tinha um relógio de luz suspensa sobre o tempo e as surpresas do horizonte.

Ao chegar a casa, a avó Mariana, ralhava -lhe marafada de tanto esperar, no desalinho de aflição, da espera com os sons da noite, que aumentam tudo, dizendo das suas verdades na solidão de uma casa abandonada, e o homem ausente, vagueando por aquelas serras, onde só o tacto e a experiência ultrapassam os perigos físicos e mentais. De tanto ralho, justo ou injusto, o meu avô foi-se fechando, muito por dentro, com a sua música de céu aberto, com a presença constante dos celeiros no coração e o cheiro da palha fecunda dos animais espantados mas serenos e do toque do sol nascente com o murmurar do cérebro livre e borbulhando numa intensidade de liberdade e recusa de morte próxima do mar.

O meu avô Jacinto, de tanto se fechar deixou de ouvir de fora para dentro, não sei se por causa dos ralhos da avó Mariana se por outra razão de origem normal, nada a ver com a sensibilidade dos sons ou outras vibrações, que fazem encolher os ombros à incompreensão dos verdadeiros silêncios.

Quando não se ouve de fora para dentro, a comunicação fica ao contrário. É um olhar de gesto entendido pela intenção, pelo esforço da imagem.

Quando tocava naqueles palcos improvisados, o meu avô Jacinto, sarava feridas com o fole de corridinho vadio e as pessoas compreendiam esse movimento de se juntar tudo, céu e terra numa única noite, para esquecer o tempo de outros dias passados e futuros.

A história, que o meu avô Jacinto me contou, dos jovens do norte e do sul, é um encontro de seu desejo com o tempo e a continuidade do sonho. Viver é como o som que existe dentro da capacidade de amar, que ninguém consegue explicar mas somente sentir. As amendoeiras têm o perfume do som, como a palavra vai tecendo a sabedoria, através do zumbido das abelhas, as amêndoas vão tocando no leite das cabras solitárias da serra, e as velhas de rugas sábias vão falando das raízes das árvores seculares que transformam as lareiras em rostos dos que tocaram nos seus troncos.

Agora, vive junto ao mar, sente o pulsar dos pescadores, sabe das mensagens dos grandes cardumes e volta na volta, vai pelo mar fora com o seu fole, tocando para todos aqueles que dançavam ao seu som naqueles tempos de candeias acesas e medronheiros mágicos com os corações abertos em tanta roda plena. A avó Mariana, lá está no seu monte de nunca sair, independente de tudo, de todos e das coisas modernas, com a idade de um século, seca de comunicar com ele, olha para o fundo da serra, e vai sabendo do tempo da mesma forma que o mar ao longe dá na cor e movimento. A vida tem ainda a presença do fole, tocando ao fundo em Cacela Velha com rezas de solidão que lhe vão acalmando esse estado familiar e ilusão numa presença constante da consciência dos ralhos e outras injustiças.

O meu avô Jacinto, pensa muitas vezes, quando viaja sobre o mar, se a alfarrobeira terá ainda a mesma recordação do gaspacho e dos cestos de cana entrelaçados com a conversa do Joaquim, perdido noutros mares ou noutra lota de peixes vadios, apanhados por pescadores vagabundos.

A serra continua lá, pelo menos com as suas toalhas de água combatendo a impotência da Barragem, uns partem outros chegam para descansar os olhos no rio e no mar, depois regressam ao mesmo povoado da ilusão, transportando na alma algum pedaço de esteva do sítio da reserva com um resto de pegada de animal que sobrevoam os seus silêncios e imaginação para suportar outro ano monotonia e ilusão.

O meu avô Jacinto passeando-se sobre aquelas fragas, lá vai evitando que o mar, no Inverno, não venha engolir a ria Formosa, num ápice de energia alongada, penetre muito no âmago dos viveiros de ostras que têm ainda a esperança de serem livres para ofertas àqueles amores conhecidos na Ilha de Faro.

Em Agosto vem uma senhora tocar violino dentro da velha Igreja secular, com a presença do velho tocador de fole, imaginar com o voo das andorinhas a diferença entre o som dos turistas e a cor do sol que acumula desejos do norte.

 A Ria Formosa e Castro Marim, têm a visita de animais voadores que vêm de muito longe, todos os anos, quando sabem que podem descansar das mazelas das rotas e do amor e que os deixam em paz e liberdade.

Quando chegam com as histórias das suas viagens sabem o que encontram no Algarve na vida de cada um. Histórias exactamente iguais aos anéis de Saturno. Anéis que circundam o coração de qualquer planeta, como aquele que habitamos.

Como esta ria se apresenta, beijando a parte mais a sul da Europa. A ria Formosa tem a fronteira com um absoluto dividido, por isso sabe do violino, do meu avô e do santuário secreto acumulado ao longo de anos e grande experiência de espera para que algo aconteça, vindo lá do norte onde os frios são mais intensos.

 O meu avô Jacinto tem o fole sempre atento ao beijo sobre as areias, sabe dos prantos dos montanheiros, ama tão intensamente qualquer lua, mesmo que seja invisível e quando as raízes lhe tocam, para que continue, ele lá vai, sobre as ondas a pedir uma maior delicadeza para este mundo que vivemos, todos por vezes, de candeias às avessas, pensando no futuro com remorsos do passado.

Os sonhos de cada um são transmitidos todos os dias, no compasso das marés, no nascimento e na morte, no grande aceno da vida e no declínio da hipótese de haver algo mais para além que um por de sol onde o prazer não se esgote.

Sobre a ria Formosa, existe um forte onde antigamente se observava ao longe, vultos que vinham atacar pescadores despreocupados com tanto peixe de ondas generosas e medronheiros dos amigos com todo o tempo do mundo, que necessitavam de entender de perto aquela proximidade líquida da serra com o sal.

Agora existe um adormecimento da rapidez do coração não poder comunicar tão facilmente com as faces.
Para isso é necessário, o meu avô Jacinto, vir de vez em quando com o seu fole reanimar o interior das veias, sarar algumas feridas da memória e atear as fogueiras, no encontro feliz com a realidade de cada um.

Essa palavra e esse som têm qualquer coisa em comum com o voo em espiral da andorinha sobre o violino, que naquelas tardes de Agosto transmitiam ao meu avô, comovido pela proximidade do tempo, a mensagem exacta, num terno olhar de acreditar que tudo se poderá compor ainda no coração do homem, numa simplicidade de renascer constante em harmonia e libertação.

Acreditem que o meu avô está lá, com o seu fole e que tem um olhar azul e interpolar, sarando as feridas da monotonia, com segredos de sal, sol e lua, misturados com cânticos de corais sem fronteiras de planetas, ajudando a dançar todas as constelações, ao toque do grande movimento, onde não cabe o conceito e a diferença que destrua o sonho.

Entretanto o planeta continua a girar da mesma maneira…?

E nós?

Eduardo Nascimento

Editado em 2002