Eduardo Nascimento – A Pulga e o Elefante

A PULGA E O ELEFANTE

Era uma vez uma pulga que saltava e saltava e voltava a saltar, para ver mais alto. Lá para o outro lado do mundo.

De tanto saltar, foi parar, sem querer ao olho de um elefante que por ali  passava, calmamente com os seus amigos e família, perto do seu retiro de saltos.

Quando se viu, pousada na cabeça do elefante, pensou:
– Agora já não tenho necessidade de  andar para aqui aos saltos, saltinhos e saltões, porque daqui de cima vejo tudo até ao longe, como se estivesse numa montanha.

Assim  pensou, assim o fez. Chamou logo a sua famelga pulguenta e lá foram, instalar-se no “cucuruto”do paquiderme, com grandes vivas de felicidade e alegria.

Ora o elefante senhorio, começou a sentir uma coisa estranha no andar de cima. Uma sensação incomoda  de último andar, ocupado por vizinhança desconhecida e em festa agitada. Para escutar e sentir melhor, volta na volta parava, controlando as suas enormes orelhas e punha-se à escuta para captar o que se passava.

O pulguedo em festança, lá estava observando do alto a paisagem, tomando chá e biscoitos de pulga, em festa de arromba, aliviados de tanto salto ter dado.

O elefante, com o olho a deitar lágrimas, eriçou a tromba e como uma trompete, lá perguntou aflito:
– Quem é que está aí  aos berros?
– Sou eu, a sua vizinha pulga. Eu posso ajudar-lhe a parar essa dor que o faz chorar!
– Como? – Perguntou o elefante, desfazendo-se em água pela tromba abaixo.
– Posso ir aí, ao lado e tirar esse mal do seu olho. Logo ficará melhor.

O elefante que não sabia o que era uma pulga, ao princípio desconfiou se aquilo não era a voz de algum fantasma ou o truque do seu primo, com a mania de ser ventríloquo. Mas como a dor não saía, nem com a esfregadela da tromba, lá se resignou dizendo:

– Está bem ó Dona Pulga. Não sei se você existe, mas se existe, ajude-me pois parece que me entrou um porco-espinho para o olho.

– Não é um porco-espinho. É o meu belo chapéu em forma de coroa que me voou da cabeça.

Com um salto bem treinado, a pulga rainha, chegou-se perto do olho do paciente e zás. Tirou-lhe o chapéu, com um alto som de alívio do elefante, agora agradecido olhando  para a pulga com melhor visibilidade.

– Você é que é uma pulga? Que raio de bicharoco mais pequeno e saltitão! Bem, mas muito obrigado por me ter aliviado desta dor de olho chorão. E já agora onde vive?

– Eu? Bem, se não ficar zangado comigo eu posso contar.

Estava eu aos saltos no chão, aqui perto quando, num salto mais de campeão, me levou ao cimo da sua linda, linda e espaçosa cabecinha. Ainda por cima com uns abaniques que dão fresquinho e lindos como asas ao vento. Quando estava lá no seu alto, a vista era magnífica e, com um assobio especial de pulga, convidei os meus amigos e famelga pulguenta, a subirem de salto, ou pela tromba a cima, assim acontecendo. Foi a visão mais bonita que tivemos todos até agora, fartos de andar sempre aos saltos de terra em terra, de cão em cão, de gato em gato. Como pode sentir daqui, lá estão todos, ainda numa grande festa, como uns senhores da montanha, deliciados com a vista no horizonte.

A pulga rainha que lhes indicara aquele miradouro, tinha um chapéu enorme, espécie de coroa para se distinguir dos outros. Uma espécie de campeã dos saltos. De repente, uma ventania muito forte veio sem avisar, e o  chapéu saltou-lhe da sua cabeça real, indo pelo ar, só parando dentro do olho do elefante, altura que ele, muito paradinho, tentava,  de olhos esbugalhados, muito concentrado perceber qual a origem e o porquê daquela algazarra.

O nosso elefante, com o chapéu enfiado no olho, deitava lágrimas como aquela poeira que nos entra pela vista, sem avisar e  ficamos a chorar, como um rio deslizando pela cara abaixo.

Então a pulga do chapéu, resolveu aventurar-se  para recuperar a sua preciosidade real.

Desceu até à grande orelha do elefante e segredou-lhe.
– Senhor elefante, senhor elefante, sou eu, a vizinha do andar de cima, consegue ouvir-me?
– Sim, como é que uns super ouvidos como aqueles não haviam de ouvir. Aquele som, junto aos tímpanos parecia colunas de som de trovões dentro de uma panela.

O elefante, ainda com um olhar espantado, ia ouvindo, a história daquele bichinho, chamado pulga e quase não acreditava, naquela ocupação do seu espaço superior entre orelhas. Mas como tinha uma divida de gratidão do seu alívio, lá compreendeu, decidindo apresentar a pulga à sua família maravilhosa e amigos da manada, sempre unida, de boa memória, como todos os elefantes, grandes de corpo e dóceis de coração.

A pulga, por sua vez, prometeu apresentar todo o seu povo pulguento e, com aquele assobio especial, chamou-os, formando-se logo uma grande fila, numa confraternização com os paquidermes, trocando amizades e experiências de saltos e jactos de água, saídos das trombas, entre risos e conversas de animais pequenos e animais grandes que nunca mais acabavam.

Enfim, o tamanho não tem grande  importância. Foi tudo uma questão do elefante, saber da existência da pulga, embora a pulga já conhecesse o elefante, e agora muito melhor naquele ponto alto.

E assim ficaram amigos.

Os elefantes deram-lhes autorização para viverem no alto de toda a manada.

Neste momento, fazem festa todos as semanas.

Convidam os elefantes à dança.

E ainda tentaram que estes dessem alguns saltos. Dão grandes passeios pelas florestas, sempre em festa e com belas paisagens, num nunca mais acabar.

Um dia ainda passam por aqui. Ou por aí, sabe-se lá.

Estejam pois atentos ao assobio especial da nossa amiga pulga rainha e campeã de saltos.

(E cuidado com o vento.

Pode trazer chapéus…)

Eduardo Nascimento
Outubro 1999