Biografia

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LUÍS RODRIGUES  para além da pintura, no labirinto dos signos

        Mais uma vez, nesta abordagem da obra pictórica de Luís Rodrigues, não se trata de saber o que ela representa, em que escolas ou correntes artísticas se inscreve. Seria uma visão demasiado redutora, tanto mais que as fronteiras entre escolas são por vezes indefinidas e lábeis. Haverá sempre no entanto críticos de arte a defender a sua causa. Deixarei de lado também as etiquetas tradicionais ou na moda: abstracção, figurativo, informalismo ou “realismo da natureza”, mais uma abstracção. Para parafrasear Jean Dubuffet, a Arte logo se escapa quando lhe querem fazer a cama para ela se deitar. O trabalho de Luís Rodrigues parece-me aliás demasiado polimorfo para se deixar aprisionar em tão apertadas grelhas e nomenclaturas. Que pretendo então? Apenas vislumbrar o que esta arte induz, o que ela me sugere, a que viagem me convida. E já é muito. Talvez mesmo tarefa impossível, muito embora o artista nos tenha dado algumas pistas quando disse algures ”olhar muito e observar ainda mais”. A etimologia destes dois verbos permitirá melhor explicitar os conteúdos: olhar significa que a vista se dirige sobre algo ou alguém, de frente, de alto a baixo ou de soslaio, pouco importa. O seu estatuto é mediático. Quanto ao “observar” (do latim ob, objecto + servare, preservar, salvar), ele inscreve-se numa semântica mais abrangente, a de interiorizar o objecto, operação bem mais elaborada que um simples olhar.

Apesar de uma linha de continuidade na obra de Luís Rodrigues, é possível constatar no  seu percurso três períodos distintos que tentarei pôr em evidência: o primeiro, (1996 – 2001) parece-me marcado, grosso modo, por uma insularidade em arquipélago das produções plásticas: paisagens marítimas, vaporosas, submersas aqui e lá. (Cf. Tormancy 2000, óleo s/papel 40×50 cm, bem como Pointe Courte, óleo s/papel, 40×50 cm.). Deste mesmo registo participam outras peças a óleo s/papel:  Été, 23×30 cm., Verão,  23×30 cm.,  dois Bourgogne 40×50 cm. e 50×50 cm., Sète, 40×60 cm., todas datadas de 2000.  Submersão  ainda em  Bourgogne  2001, técnica mista s/tela,  114x 146 cm.

Por que caminhos nos vai levar o artista no período seguinte 2003-2009? Mudança de rumo. Uma viragem relativamente aos trabalhos anteriores: cf. Vent du Soir, uma série que se prolongou de 2005 a 2009, com acrílicos s/tela, alguns de grande dimensão (Octobre 2009, 160x 220 cm.). As unidades pictóricas apresentam-se nesta fase compartimentadas, particularmente em Vent du soir Juillet 2009, acrílico s/tela, 170×180 cm. Aqui nada mais flutua, um código cromático espesso, as transparências são abandonadas, embora alguns vestígios da poética da diluição sobrevivam em aguarelas com colagem.

Quanto às peças mais recentes de 2011- 2014, também na maioria de grandes dimensões, constata-se o desaparecimento da insularidade, as superfícies mais espessas ainda, compactas, aglutinantes. Um dado novo: construções em mosaico gráfico e um convite ao alfabeto. Uma linguagem lúdica mas hermética, de acesso desconhecido. Talvez que o próprio artista o procure também: cf. série Pages d’Écriture: tríptico 195×244 cm., e série Assemblages, 114x195 cm.,acrílico s/papel marouflé s/tela. Nesta mesma série, 130x 195 cm. e 130×162 cm.,  acrícilos s/papel marouflé. Em Assemblages ainda, 33×48 cm. e 25×50 cm. s/papel marouflé.  De assinalar ainda neste período, a série Vibration de l’aube  2013. Nesta coreografia de signos oníricos estamos confrontados com uma narrativa povoada de significantes visíveis, palpáveis, mas que resistem ao significado, fazendo lembrar, a montante, os desenhos pré-históricos – trinta e cinco mil anos atrás – sobre os muros das cavernas, ou talvez, bem mais recente, a escrita suméria ou ainda antigos signos célticos. E foi o meu momento de ficção. Por que regressar tão atrás? A nova gramática deste artista convidaria a um regresso longínquo às raízes da palavra e do gesto, para melhor questionar e pôr em causa a linguagem opaca do presente, repressiva e indecifrável. Diria ainda que os trabalhos mais recentes de Luís Rodrigues, sem prejuízo da sua identidade e cunho próprios, fazem pensar, a jusante, nas imagens – signos contemporâneas de P. Klee (1870-1940), para além da pintura. Basta observar a Composição Cósmica e o Jardim Estranho do pintor da Bauhaus, toda a sua vida a conviver com os signos e que aos 16 anos de idade já visitava o departamento de etnologia do museu de história em Berne, na Suiça. Não serão de excluir também algumas familiaridades que Luís Rodrigues poderá ter tecido com a obra de Tapiès ou de Miró. A que novos horizontes e universos nos convidará ele ainda? Ninguém o sabe. Só a criatividade decidirá.

António Branquinho Pequeno

 

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  LUÍS  RODRIGUES: au-delà de la peinture, dans le labyrinthe des signes

Encore une fois, dans cette l’approche de l’œuvre picturale de Luís Rodrigues, il ne s’agit pas de savoir ce qu’elle représente ou à quelles écoles ou courants artistiques elle appartient.  Ce serait un point de vue trop réducteur, d’autant plus que les frontières entre ces écoles sont souvent floues, labiles. Mais il y aura toujours des critiques d’art qui s’en occuperont pour le besoin de leur cause. Je laisserai aussi de côté les étiquettes traditionnelles ou à la mode, comme abstraction, figuratif, informalisme, “réalisme de la nature”, concepts plus ou moins abstraits à faire rêver. Pour paraphraser Jean Dubuffet, l’Art s’échappe dès qu’on veut lui faire un lit pour qu’il s’y couche. Le travail de Luís Rodrigues me semble, par ailleurs,  suffisamment polymorphe pour se laisser apprivoiser dans les grilles de telles nomenclatures.  Je prétends ici à peine repérer ce que cet Art induit, ce qu’il me suggère, à quel voyage il m’invite. Et c’est déjà beaucoup, je dirais même que c’est une mission impossible.  Et pourtant, l’artiste nous donne quelques pistes, en faisant remarquer qu’il regarde beaucoup et observe davantage. L’étymologie de ces verbes permet de mieux expliciter leur contenu: regarder veut dire que la vue se dirige sur quelque chose ou quelqu’un, en face, de haut en bas ou de travers, peu importe. Son statut est médiatique. Par contre, observer (du latin ob, objet + servare, préserver, sauver), s’inscrit dans une autre sémantique, plus étendue et dense, celle de préserver et d’intérioriser l’objet. C’est par conséquent une opération davantage élaborée qu’un simple regard.

Bien qu’il existe une ligne de continuité dans l’œuvre de Luís Rodrigues, on décèle dans ce parcours, trois périodes distinctes que je m’efforcerai de mettre en évidence: la première (1996- 2001) est marquée, me semble-t-il, grosso modo, par une insularité en archipel des productions plastiques: paysages maritimes, vaporeux, submergés ici et là: (Cf. Tormancy 2000, huile s/papier, 40x 50 cm., ainsi que  Pointe Courte, 40×50 cm.). De ce même registre participent d’autres pièces à l’huile s/papier: Été, 23×30 cm., Verão, 23×30 cm.,deux Bourgogne, 40×50 cm., et 50x 50 cm., Sète, 40×50 cm., toutes datées 2000.  Submersion encore dans Bourgogne 2001, technique mixte s/toile, 146×114 cm.

Vers quels cheminements nous entraîne l’artiste au cours de la période suivante 2003- 2009? Changement de cap. Un virage par rapport à l’itinéraire précédent: Vent du Soir, une série que se prolonge de 2005 à 2009, acryliques s/toile, quelques uns de grande dimension, Octobre 2009, 220 x160 cm. Les unités picturales se présentent maintenant compartimentées, surtout dans Le Vent du Soir Juillet 2009, acrylique s/toile, 180×170 cm. Ici plus rien ne fluctue, le code chromatique s’alourdit et les transparences de la première phase sont révolues, bien que des vestiges d’une poétique de la dilution peuvent survivre, notamment  dans des aquarelles avec collage ( Avril 2009).

Venons- en maintenant aux travaux récents, de grandes dimensions pour la plupart,  de la période 2011- 2014. On constate la disparition de l’insularité, les surfaces deviennent épaisses, compactes, agglutinantes. Une mosaïque graphique.  Une invitation à l’alphabet. Un langage ludique, bien qu’hermétique, dont on ne connaît pas le code d’accès. L’artiste lui- même doit le chercher. Tout cela me semble visible dans la série Pages d’Écriture: triptyque 195x 244 cm. Ainsi que dans la série Assemblage,  195x 114cm., acrylique s/papier marouflé s/toile.  Dans cette même série, 195×130 cm. et 162×130, toutes acryliques s/papier marouflé. Des Assemblages aussi, 48×33 cm., 60x38cm., et 50×25 cm. s/ papier marouflé.  À signaler encore, dans cette période, la série Vibration de l’aube 2013. On est confronté dans cette chorégraphie de signes oniriques à un récit peuplé de signifiants visibles, palpables, mais qui résistent au signifié, rappelant, en amont, les dessins préhistoriques- trente cinq mille ans en arrière- sur les murs des cavernes, ou alors à l’écriture sumérienne, bien plus récente –  c’est mon moment de fiction – ou à des anciens signes celtiques. Pourquoi aller si loin?! Cette nouvelle grammaire exigerait un retour au passé, aux sources du langage, pour mieux dépasser celui du présent, devenu aussi impénétrable que répressif. Les travaux les plus récents de Luís Rodrigues, sans préjudice de leur propre identité, nous font aussi penser, en aval, aux images- signes contemporaines de P. Klee (1870- 1940). Images qui vont au-delà de la peinture. Il suffit d’observer Composition Cosmique et Jardin Étrange du peintre de la Bauhaus qui, toute sa vie, s’était attaché à ces signes. Ce ne fut pas par hasard si Klee, dès  l’âge de 16 ans,  visita déjà le département d’ethnologie  du musée d’histoire à Bern, en Suisse.  On ne peut pas oublier non plus les familiarités de Luís Rodrigues avec l’œuvre de Tapiès ou de Miró.  Quels horizons et quels univers nouveaux nous invitera- t-il encore à découvrir? Personne ne le sait. Seule, la créativité en décidera.

António Branquinho Pequeno